EDIÇÃO ESPECIAL COMEMORATIVA AO CENTENÁRIO DA OBRA

 

Curadoria: Marcelo Checchia, Paulo Sérgio de Souza Jr. e Rafael Alves Lima. Tradução do alemão por Paulo Sérgio de Souza Jr. 

O livro faz parte da Série Escrita Psicanalítica, que conta com, também com traduções do alemão de Sándor Ferenczi e Karl Abraham e ensaios inéditos contemporâneos.

 

"O título de Otto Gross, “Três ensaios sobre o conflito interno” (1920), pode enganar o mais desavisado, pois, apesar da referência implícita ao título de Freud, “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), e também a referência ao termo “conflito”, não segue uma doutrina freudiana. Ao menos, não no que significaria manter-se exclusivamente no terreno que Freud demarcou. Eu diria que Gross é freudiano pela ousadia em ir além e buscar sua própria metapsicologia; por encontrar seu caminho teórico, diferenciando-se do mestre e buscando, também, outras figuras nas quais se apoiar.

É, principalmente, a partir de um emaranhado das teorias de Freud e Adler, que Gross busca seu próprio idioma, sua própria terminologia, sua forma de encarar os fenômenos e as relações conflituosas entre o que é inerente ao ser e o que provém do mundo exterior.

Em uma Série que pretende problematizar a Escrita Psicanalítica, o texto de Otto Gross tem muito a somar, pois traz um pensamento singular, aliado a uma terminologia também singular, o que já é o suficiente para suscitar muitas interrogações, seja o leitor simpatizante ou não das ideias do autor."

                                                                                                      Lucas Krüger

 

"Há exatos cem anos, vieram à luz os Três ensaios sobre o conflito interno, no mesmo ano em que faleceu seu autor. Na época, e ao menos nos setenta anos seguintes, esse texto não ganhou nenhuma repercussão na comunidade psicanalítica. Otto Gross, considerado um gênio por Freud na primeira década do século XX, já havia sido segregado pelo próprio Freud há mais de dez anos, devido ao seu engajamento com o anarquismo e a sua adicção. Aliás, segundo relato de seu amigo Franz Jung, no período em que escreveu esse texto (1919), seus vícios nunca tinham sido tão intensos e seu estado de saúde jamais tinha ficado tão deteriorado. Em contraste, continuava escrevendo pujantemente e seu estado intelectual parecia nunca ter ficado tão agudo e lúcido. De fato, nesse texto Gross conseguiu edificar solidamente não só os pilares de uma teoria própria, cujos primórdios surgiram publicamente em “Violência parental” (1908), como uma série de vigas que os interconectam e lajes que os sustentam.

O pilar é apresentado logo no primeiro ensaio, no qual Gross expressa a base de sua teoria do conflito interno, fundamentada em uma articulação original entre alguns conceitos de Freud, Adler e Nietzsche. Contrapondo-se à teoria freudiana, de que a etiologia das neuroses seria de ordem sexual, Gross defende que o conflito primordial ocorreria entre o próprio e o estrangeiro, isto é, entre o que seria singular – ou mesmo constitutivo – de cada um, e as sugestões ou arbitrariedades impostas pelos cuidadores, que forçariam a criança a se adaptar, a se submeter para receber amor. Tal conflito ganharia inúmeros desdobramentos psíquicos: a instituição de um masoquismo primário – na medida em que a submissão passaria a ser associada ao prazer advindo do contato com o outro –, que, por sua vez, levaria à formação do sadismo ou daquilo que ele chamou, inspirado em Nietzsche, de vontade de potência – uma espécie de hipertrofia da pulsão do eu (tal como definida por Adler), cuja função inicial seria demover o sujeito da posição masoquista que ameaçava sua integridade. O conflito entre sadismo e masoquismo (que se dá, agora sim, no âmbito propriamente sexual) ganha, ainda, uma série de desdobramentos na orientação sexual e na construção dos gêneros. Já o segundo ensaio, é dedicado ao papel exercido pela solidão – concebida como angústia de morte – no conflito entre o próprio e o estrangeiro, enquanto o terceiro ensaio trata, por meio de apresentação de fragmentos de casos clínicos, da loucura como outro possível efeito decorrente de tal conflito. Tudo isso apenas para citar a riqueza de temas a serem debatidos a partir deste texto, até então inédito no Brasil.

Evidentemente, alguns dos pontos levantados preci­sam ser ressituados à luz das construções teóricas realizadas nesses últimos cem anos de psicanálise, mas eles não deixam de trazer contribuições ainda relevantes para os tempos atuais e de provocar reflexões originais. Esta edição especial faz jus a seu valor e o reinsere no debate contemporâneo."

 

Marcelo Amorim Checchia

Paulo Sérgio de Souza Jr.

Rafael Alves Lima

Três ensaios sobre o conflito interno - Otto Gross (2020/1920) - S. Escrita P.

R$ 35,00Preço

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